1. A tríade programática
O Festival Música em Leiria, esta outra Festa da Música, sem o sentido último de enlatado ou fast food, aparece aos nossos concidadãos e a todos os melómanos que o esperam, qual uma emanação da Primavera. A árvore que volta a abrir-se em folhas. Há 23 anos atrás e durante muitos anos mais, falar de cultura em Leiria era falar de Orfeão de Leiria, e o seu Festival aparecia sempre como o grande lampião de qualidade e de exigência.
Foi-nos possível materializar uma tríade programática: que tínhamos por decisiva; instituir o ensino artístico; conseguir infra-estruturas adequadas; manter esta nova instituição chamada Festival como um pólo de referência, de rigor, de bom gosto, susceptível de induzir mudanças.
Outro dia no Jardim da Música da RDP 2 a Judite Lima ironizava com amizade: «Mas isso é um Programa para o Ministério da Cultura...». Claro que é, como o foi nesta instituição e como o pode ser noutra ou em qualquer autarquia.
2. Os resultados estão por todo o lado
Mas o país muda sem que muitos se apercebam ou porque se fixam no muito que pouco progride. O Orfeão de Leiria é hoje uma instituição com 28 frentes de intervenção. E muito difícil de manter, obviamente, porquanto apenas 40% das suas receitas são resultado de exploração, e porque exige uma grande unidade, sacrifício e persistência directiva a todos os níveis. Os resultados da sua porfia cultural estão hoje por todos os lados, nas grandes companhias artísticas como em praticamente todas as formas artísticas eminentemente populares, nos muitos melhores espectadores como nos potenciais novos alunos criados nos programas Zero-Cinco, nos Concertos para Bebés, na produção balética e noutras formas de expressão artística genuinamente nossas.
Não existe outra Escola em Leiria com ensino reconhecido pelo Estado para a música como para a dança.
Como felizmente acontece na área industrial os recém formados e os empregados com mais aptidões vão replicar as iniciativas desta casa por aí além. E muitas vezes nem nos importamos que chamem a si a autoria dos produtos das equipas que constituímos, porque toda a gente sabe que não se pode nem se deve contrariar o show off sem produzir efeitos sociais piores.
Mas também apareceram muitos outros produtores culturais, de qualidade, e a indústria da cultura desenvolveu-se com muitos mais actores.
3. Públicos jovens mais interessados
O Festival Música em Leiria cuja 23ª edição lhes vamos apresentar hoje pela voz do seu Director Artístico Dr. Miguel Sobral Cid, já não é o farol único que ilumina o nosso ideário de promoção da qualidade e do bom gosto. Hoje é sobretudo mais uma realização cultural regional, porventura a de maior expressão, qualidade, desafio estético, diversidade, e de maior atracção do público. E nisso rivaliza seriamente com as cidades mais cosmopolitas do nosso país.
Ao contrário do que a maioria dos dados macro económicos e sociais publicados tem vindo erradamente a suscitar como expectativa - um pouco como as falácias que se constroem sobre o desenvolvimento da Irlanda e quimeras quejandas -, Portugal tenha dos públicos jovens mais interessados em manifestações musicais de qualidade. Tem sido necessário serem os estrangeiros ilustres a reconhecê-lo.
4. Os accionistas da cultura
Há muito boa gente que nos faz crer que o Orfeão de Leiria, porque faz muito - e uma média de um concerto ou realização por dia, sem contar com as práticas eminentemente escolares, é mesmo muito -, nem deve precisar de dinheiro. A verdade é que nunca andamos por aí a falar de dinheiro ou dificuldades. Mas há quatro dados essenciais a reter neste aspecto.
Por um lado as empresas de bens e serviços, nomeadamente a banca no seu amplo espectro, e as industriais com administrações abertas e sensíveis, não nos têm regateado o seu apoio. Reconhecem-se nas nossas iniciativas.
O Ministério da Cultura evoluiu. Hoje há concursos públicos para apoio às iniciativas da sociedade civil, como em qualquer Estado moderno, e até 2009 o Orfeão tem já assegurado para o Festival - uma realização cujo orçamento tem oscilado entre os 200 mil e os 300 mil € nos anos mais recentes -, a participação de 55 mil €/ano por parte do Ministério da Cultura. Muitos são os organismos públicos, desde o Governo Civil de Leiria, as Câmaras Municipais dos concelhos do distrito e de outros distritos, entre outros, cujo papel tem sido notável nesta praxis.
Desde o tempo em que, ainda estudante na Universidade de Coimbra, tive o privilégio de trabalhar com a Dra. Madalena Perdigão - numa colaboração notável que se prolongou até hoje pela Dra. Maria Fernanda Cidrais Rodrigues, pelos Dr. Férrer Correia e Dr. Rui Vilar, pelos Dr. Luís Pereira Leal, Dr. Carlos de Pontes Leça e Dr. Miguel Sobral Cid, e a que Coimbra e sobretudo Leiria muito ficaram a dever -, a Fundação Gulbenkian tem tido um papel notável e singular na afirmação cultural., Aposta efectivamente no crescimento dos públicos onde vê que há condições materiais e humanas para o fazer. Neste como noutros aspectos da modernidade cultural é uma instituição que continua sem competidor. Lembro-me de ouvir pessoalmente a Jaques Delors que nem sempre esta saga tem a exaltação que merece.
Todavia, não posso deixar de destacar entre tantos apoios firmes o da Câmara Municipal de Leiria nos últimos sete anos. Porquanto, para além da boa vontade com que é prestado, ele assume no essencial a forma de Contrato/Programa, uma fórmula que desde há anos tenho teorizado e propugnado como paradigmática duma política cultural e educativa dum Estado moderno, e particularmente num país com desequilíbrios sociais e culturais relevantes. E isto é muitíssimo importante que se diga.
Vamos saber agora em concreto de que forma se reveste a 23º edição do Festival Música em Leiria. Trata-se afinal do único Festival de Música em Portugal suportado no essencial por financiamentos privados. Pouco importa se apenas nos falta «pedir à porta da igreja» para o conseguir!
5. O sucesso não cai do céu
Mas se algumas mensagens eu gostava que ficassem visíveis à margem deste grande acontecimento, elas sintetizam-se facilmente: por um lado, é necessária muita persistência e algum franco estoicismo para produzir, sendo-se criativo e apostando na diversidade, mas mantendo as instituições estáveis ou em crescimento, relativamente imunizadas para todo o tipo de oportunismo que surge em cada curva, sem shows - off demagógicos, feitos à custa umas vezes da ignorância, outras vezes da palhaçada, do encher o olho a alguma comunicação menos formada, ou do verbo fácil; por outro lado, o quão importante é nunca perder a noção de que a cooperação a todos os níveis, pessoais e institucionais, aberta e leal, é a figura máxima para qualquer evolução no sentido da melhor qualidade de vida das comunidades.
O sucesso não cai do céu.
Muito obrigado pelo apoio de todos.
Conferência de Imprensa de Lançamento do Festival
Leiria, 12 de Maio de 2005
